Cerca de 20 etnias indígenas ainda praticam o infanticídio

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03/05/2013

ATINI NO SITE DA REVISTA VEJA


Os índios, a cultura da morte e os poetas do infanticídio. Ou: Ninguém vai dar beijo na boca para salvar os curumins?

Vivemos dias, como sabem, da mais absoluta inversão moral. Um deputado como Osmar Terra (PMDB-RS), que propõe uma lei mais dura contra o tráfico, é tratado pela imprensa como bandido. É achincalhado, convoca-se um batalhão para dar opiniões e escrever artigos contra a sua proposta e lhe cassam a palavra. Já um outro, como o petista Paulo Teixeira (SP), que acha que um estoque de drogas para até 10 dias de consumo deve ser considerado legal (e isso é tráfico, claro!), é visto como herói, é paparicado, é tratado como pensador. Assim, ninguém aqui vai estranhar muito, embora possa ser estupefaciente, ao saber que uma entidade que salva crianças indígenas do infanticídio está sendo perseguida pelo Estado brasileiro. Vamos ver.
Num dos textos que escrevi textos que escrevi sobre o tal Beto, aquele senhor que, por distração da Igreja, ainda era seu sacerdote, afirmei que a cultura politicamente correta dos nossos dias convive bem com o infanticídio praticado por tribos ianomâmis, mas acha absurdo que a Igreja Católica cultive alguns valores sobre a família. Citei o caso dos ianomâmis, mas atenção!, há pelo menos 20 etnias no Brasil que ainda matam suas crianças, sob o olhar cúmplice da Funai e do Ministério da Justiça. Certa “antropologia” acha que o “homem branco” não tem de se meter. Em nome do multiculturalismo, considera-se um “direito” matar infantes. As situações que “justificam” a sentença são as mais variadas: deficiência física, nascimento de gêmeos (um tem de ser morto), filho de mãe solteira… E vai por aí.
Recebi um comentário enviado por Damares Alves, que é pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular, advogada e assessora parlamentar. Ela é fundadora e dirigente de uma entidade chamada Movimento ATINI-Voz Pela Vida, que intervém, salva e cuida de crianças condenadas. Também é preciso dar abrigo às famílias, que, para salvar seus filhos, são obrigadas, muitas vezes, a deixar a comunidade. Resultado: o ATINI está sendo perseguido pelo estado brasileiro. É isto mesmo: quem salva vidas é obrigado a se explicar!
Damares está diretamente envolvida com o projeto, trabalho que é severamente combatido pela Funai. A fundação e alguns de seus aloprados acham que a intervenção descaracteriza a cultura dos índios. Leiam trecho da mensagem de Damares. Volto em seguida.
Reinaldo,
Não dá mais para viver neste país sem ler seu blog todos os dias. Que bom que você, novamente, tocou no assunto infanticídio em áreas indígenas! Faz tempo que queremos convidá-lo a conhecer alguns pais indígenas que, contando com apoio de pessoas corajosas, lutaram para salvar seus filhos do infanticídio. Então fica registrado o convite. Venha e descobrirá como estão lindas as crianças, algumas já são adolescentes. Venha passar uma tarde conosco, em nossa instituição. Venha jogar bola com elas (se prepare para perder), venha ver como elas estão felizes. Mas venha também degustar comidas indígenas com os adultos — claro que, em nosso cardápio, temos formigas vivas para lhe servir. Tem coragem?
Aproveito para lhe recomendar o documentário “Quebrando o Silêncio”, da cineasta Sandra Terena, onde ela, como indígena, apresenta imagens e depoimentos provando que o infanticídio ocorre também em outras etnias e que os índios amam seus filhos e querem ajuda para não mais eliminá-los, mesmo que alguns “intelectuais” digam que os índios devem continuar matando seus filhos. Por ajudar os indígenas a salvar as crianças o Movimento ATINI-Voz Pela Vida (www.atini.org/), do qual sou uma das fundadoras, responde a inquéritos na Polícia Federal, e algumas pessoas que voluntariamente acolheram crianças em suas casas também estão sendo ameaçadas.
(…)
Reinaldo, mais uma vez parabéns pela sua coragem. Obrigada por sempre lembrar dos pequenos curumins, Que o Grande Tupã o abençoe!
Damares Alves
Sou grato a Damares pelas palavras gentis, mas terei de declinar das formigas vivas… Não rola, assim, uma farinha de mandioca com água, hehe? Brincadeira à parte, Damares certamente cita o caso das formigas para deixar claro que, ao salvar uma criança, ninguém está querendo mudar os hábitos indígenas. Ademais, em nome de que teoria é sustentável a tese de que as culturas indígenas estão proibidas de operar mudanças?
O direito à vida é um valor universal protegido pela nossa Constituição. Assim, o infanticídio, se praticado em território brasileiro, é crime. E ponto final. Ainda que índios não aculturados sejam inimputáveis (e é bom deixar claro que o infanticídio persiste mesmo em tribos que já descobriram o mundo moderno…), é evidente que os agentes da Funai não são. Se há conivência — E HÁ — com essa prática, estão praticando crimes.
A comissão antes de Feliciano
A questão chegou à Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, nos tempos pré-Feliciano, quando aquilo, a dar crédito aos nossos jornais, era um antro de humanistas de esquerda. Em 2007, o deputado Henrique Afonso, do PV do Acre, apresentou um projeto de lei que punia os funcionários públicos que fossem coniventes com o assassinato de crianças indígenas. Responderiam por crime de omissão de socorro.
A Funai e alguns antropólogos pressionaram. Os esquerdistas da comissão, então, decidiram adiar o debate por quatro anos. Em 2011, a questão voltou. O texto de Afonso foi substituído por outro, da deputada petista Janete Pietá (PT-SP). Acabou-se com a possibilidade de punir os servidores públicos brasileiros que, rasgando a Constituição, forem coniventes com o crime. Janete, com aquela pureza d’alma muito própria dos petistas, deu, então, a seguinte declaração: “A tradição de sacrificar crianças é mantida por poucas comunidades. O Brasil tem mais de 200 povos indígenas. Se isso ainda ocorrer em 20, são apenas 10%”. Entenderam? Para a deputada petista, desde que não seja muito infanticídio, mas só um pouco, então tudo bem.
Ninguém deu bola para a sua declaração. Não teve selinho. Quando a comissão, em suma, nos tempos pré-Feliciano, deu aval branco para matar criancinhas em nome da preservação da cultura indígena (só em 10% das comunidades, né, deputada?), ninguém foi lá invadir a Câmara, subir na mesa, sapatear.
Criancinha assassinada não faz lobby na imprensa.
Por Reinaldo Azevedo

20/04/2013

#EUMEIMPORTO - RUTE APURINÃ



Ouça o apelo da Rute Apurinã e clique no link abaixo para assinar a petição por mais atenção à saúde das crianças indígenas. 

18/04/2013

ASSINE A PETIÇÃO

"Eu tenho muitos parentes por este Brasil afora. Segundo o IBGE, nós já somos mais de 800 mil índios. Somos 220 povos indígenas diferentes. Nossa diversidade cultural forma um rico mosaico de cores e formas, como esta pintura bonita que eu uso.

Mas nessa conta tá faltando uma coisa. Tá faltando falar da imensa taxa de mortalidade infantil nas aldeias indígenas. No Vale do Javari, a média chega a cem mortes para cada mil crianças nascidas vivas. Cinco vezes maior que a média nacional.

A maioria destas mortes poderia ser evitada. As desculpas são sempre as mesmas. Faltou carro, faltou combustível, faltou barco, faltou enfermeiro, faltou remédio...

São muitas mortes. Centenas de vozes fracas  que se calaram - em redes rasgadas, em aldeias famintas, em lugares esquecidos... Vozes silenciadas em terras hoje sem caça, sem água, sem remédio. Brasileiros sem informação, sem dignidade, sem respeito.

Até quando o primeiro choro de um bebê recém-nascido vai ser também o seu último choro? Até quando vamos ter que gritar, no meio da escuridão:

 "Ajuda Tupã, nasceu mais um curumim! Corre porque o choro deste curumim pode não durar muito."

Meu nome é Rute, eu sou brasileira, eu sou Apurinã. E eu me importo!"

Se você também se importa, assine esta petição:



08/03/2013

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Neste ano nossa homenagem especial vai para Ariane Tsinhotseedzabu Xavante e para Eunice Ticuna.

A ATINI tem imensa alegria em homenagear as mulheres indígenas da Casa das Nações!

Mulheres que vivem hoje momentos difíceis, de intensas transformações nas relações
 interétnicas em nosso país.

Mulheres que precisam de sabedoria para ajudar as novas gerações a não perder a sua identidade étnica nem sua dignidade pessoal neste processo histórico.

Mulheres que são ao mesmo tempo fortes e delicadas, ao mesmo tempo conciliadoras e questionadoras.

Mulheres que são guardiãs de culturas ancestrais, mas que estão
sempre buscando transfomação social e esperança.

Mulheres que amam suas crianças, mulheres genuínas, mulheres de verdade.

Homenageamos Muwaji Suruwahá, que precisou se afastar de seu povo para garantir a vida
e a dignidade de sua filha Iganani, portadora de paralisia cerebral.

Homenageamos Kamiru Kamaiurá, que enfrentou uma tradição ancestral, resgatou um bebê que havia sido enterrado vivo, e o adotou como filho.

Homenageamos Diva Kayabi, que adotou três bebês xinguanos que seri
am enterradas vivos, e depois fundou uma ONG para defender o direito das crianças do Xingu.

Homenageamos Celina Sateré-Mawé, que construiu um barracão de palha no quintal de sua casa para  diariamente oferecer alimentação e educação para 30 crianças indígenas carentes do seu bairro.

Homenageamos Sandra Terena, jornalista indígena, que dirigiu um documentário emocionante que mostra pais de crianças sobreviventes compartilhando sua alegria por terem tido a coragem de salvar seus filhos.
Homenageamos também Damares Alves, Simone Melo, Simone Barbosa, Liz Maximiano, Maíra Barreto, Margaret Alves, Marcia Suzuki, Regina Sarti, ... e tantas outras mulheres de coração indígena, que lutam junto com elas por um mundo melhor para todas as nossas crianças.

 Parabéns a todas as mulheres da ATINI!

07/03/2013

ASSEMBLÉIA GERAL DA ATINI

CONVOCAÇÃO

O Conselho Deliberativo convoca todos os sócios fundadores, colaboradores e beneméritos para a reunião da ASSEMBÉIA GERAL ORDINÁRIA de ATINI - VOZ PELA VIDA, que será realizada no dia dez (10) de março de 2013 às quinze horas (15:00 h), na Avenida Carmen Miranda, 9000 - Zona 25, na cidade de Maringá, estado do Paraná, para que se discutam e se façam deliberações sobre os seguintes assuntos:


2) Relatório financeiro de 2012 e proposta de orçamento para 2013;

3) Relatório sobre a situação atual do Programa de Apadrinhamento;

3) Desligamento e Admissão de sócios pelo Conselho Deliberativo;

7) Discussão dos novos rumos da chácara  e da organização em geral.


Brasília, 07 de março de 2013.

Márcia Suzuki
Presidente do Conselho Deliberativo
 
ATINI – VOZ PELA VIDA  é uma organização social, sem fins lucrativos,  formada por índios e não-índios, que atua na defesa dos direitos das crianças indígenas em situação de risco e na busca de um modelo indigenista mais humano.

26/07/2012

FUNAI e SESAI visitam a Casa das Nações

No dia 19 de julho a Casa das Nações teve a alegria de receber a visita de uma equipe de 3 funcionários da FUNAI, sendo a Sra. Joana do departamento COGER, a Sra. Liliane do departamento de Assistência Social e o Sr. Otávio do departamento de saúde. Fazia parte do grupo também uma representante da SESAI, a Sra. Liziane.
 
 
O objetivo da comitiva era visitar as famílias indígenas e conhecer as acomodações que a chácara oferece. Estavam especialmente interessados em orientar a família de Dionísio e Dafrosa Xavante, que a FUNAI e a SESAI vêm acompanhando de perto por causa dos problemas de saúde da menina Lurdinha Xavante.  Dionísio e Dafrosa residem na chácara com seus filhos há alguns meses e procuraram a ATINI para pedir ajuda no acompanhamento médico de sua filha adotiva Lurdinha. Ela tem 11 anos de idade e enfrenta sérios problemas motores devido a sequelas de meningite. A Casa das Nações oferece moradia, alimentação básica e acompanhamento de nas áreas de saúde e educação.
 
A visita de representantes da FUNAI e da SESAI foi muito proveitosa e os indígenas tiveram oportunidade de interagir e falar de suas preocupações.  A ATINI e a Casa das Nações busca, sempre que possível, trabalhar em parceria com os órgãos responsáveis pela assistência às populações indígenas em nosso país.

A Casa das Nações oferece apoio à famílias indígenas que procuram a organização em busca de um lugar seguro e tranquilo para residir temporariamente enquanto suas crianças recebem tratamento médico especializado. Muitas destas famílias tem crianças com algum tipo de deficiência física ou mental, e isso os força a buscar ajuda fora da área indígena. Na chácara essas famílias têm a possibilidade de viver de maneira semelhante à maneira que viviam suas comunidades de origem, plantando seus roçados e cozinhando de maneira tradicional. Ali eles podem praticar suas danças e lutas rituais, e o uso da língua materna é incentivado e valorizado. Além disso a organização oferece programas de educação, cidadania e conscientização em Direitos Humanos a todas as famílias residentes.

Localizada no cinturão verde ao redor de Brasília, a Casa das Nações funciona como um santuário onde famílias indígenas forçadas a viver fora de suas aldeias encontram esperança, dignidade e respeito.


11/08/2011

FOLHA DE SÃO PAULO RECONHECE IMPORTÂNCIA SOCIAL DO TRABALHO DA ATINI



Funai pressiona e Câmara esvazia projeto de combate ao infanticídio


BERNARDO MELLO FRANCO, ENVIADO ESPECIAL DA FOLHA A BRASÍLIA

Sob pressão do governo, a Câmara esvaziou um projeto de lei que previa levar ao banco dos réus agentes de saúde e da Funai (Fundação Nacional do Índio) considerados "omissos" em casos de infanticídio em aldeias.

A prática de enterrar crianças vivas, ou abandoná-las na floresta, persistiria até hoje em cerca de 20 etnias brasileiras. Os bebês são escolhidos para morrer por diversos motivos, desde nascer com deficiência física a ser gêmeo ou filho de mãe solteira.

A Funai se nega a comentar o assunto. Nos bastidores, operou para enfraquecer o texto com o argumento de que ele criaria uma interferência indevida e reforçaria o preconceito contra os índios.

Do outro lado da discussão, ONGs e deputados evangélicos acusam o governo de cruzar os braços diante da morte de crianças e defendem que o Estado seja obrigado por lei a protegê-las.

A polêmica chegou ao Congresso em 2007, quando o deputado Henrique Afonso (PV-AC) apresentou projeto que previa punir servidores que não tomem "medidas cabíveis" para impedir o ritual.

Eles responderiam por crime de omissão de socorro, cuja pena varia de multa a prisão por até um ano. O texto ainda classificava o "homicídio de recém-nascidos" como uma "prática nociva".

Antropólogos, indigenistas e assessores da Funai pressionaram a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que adiou a votação da proposta por quatro anos.

Em junho, os deputados decidiram substitui-la por uma versão alternativa da relatora Janete Pietá (PT-SP), que seguiu para a Comissão de Constituição e Justiça e pode ser transformada em lei até o fim do ano.

O novo projeto elimina todos os pontos controversos e descarta a possibilidade de processar autoridades ou servidores pela morte de crianças nas aldeias.

Em lugar de punições, diz que o governo deve oferecer "oportunidades adequadas aos povos indígenas de adquirir conhecimento sobre a sociedade em seu conjunto" em casos de infanticídio, estupro e maus-tratos.

"O texto ficou muito fraco. Vai permitir que o governo continue omisso diante dessas mortes", diz Márcia Suzuki, da ONG Atini, que acolhe mães que fugiram de suas aldeias para proteger os filhos (leia texto abaixo).

"As tradições dos povos indígenas devem ser respeitadas, mas o direito à vida é um valor universal e garantido pela Constituição", afirma o deputado Henrique Afonso.

AUTONOMIA

Responsável pelas mudanças, Janete Pietá diz ter atuado em defesa da autonomia dos povos indígenas.

"Não precisamos de lei, e sim de convencimento. Em vez de penalizar, devemos conversar com as mulheres e fazer campanhas educativas", afirma a deputada.

"A tradição de sacrificar crianças é mantida por poucas comunidades. O Brasil tem mais de 200 povos indígenas. Se isso ainda ocorrer em 20, são apenas 10%."

O Conselho Indigenista Missionário, da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), também pressionou contra o projeto original.

Segundo o secretário-adjunto do órgão, Saulo Feitosa, a prática seria "residual".

"Ninguém defende o infanticídio, mas não podemos aceitar que vendam uma imagem de que todos os índios são selvagens e sacrificam suas crianças."

As autoridades evitam emitir posição oficial ou mesmo divulgar dados sobre o infanticídio nas aldeias.

A Funai informou que não se manifestaria e negou pedido de entrevista com o presidente Márcio Meira.

A Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, criada em outubro de 2010, respondeu que o tema não cabe a ela e afirmou não ter nenhum levantamento sobre as causas da mortalidade infantil de índios.

ONG ACOLHE INDIAS QUE FUGIRAM PARA SALVAR CRIANÇAS
DO ENVIADO A BRASÍLIA

Muwaji Suruwahá, 33, fala poucas palavras em português e vive alheia à discussão sobre o infanticídio em aldeias indígenas. Mesmo assim, foi transformada em símbolo da disputa que, há quatro anos, opõe evangélicos e governo no Congresso.

Chamado de lei Muwaji, o projeto que responsabiliza agentes públicos pela morte de recém-nascidos é inspirado na história dela e da filha Iganani, 8, que nasceu com paralisia cerebral.

Em 2005, a índia deixou sua tribo para evitar que a menina fosse sacrificada, como prevê a tradição de sua comunidade.

Elas vivem hoje na sede da ONG Atini, nos arredores de Brasília. A organização foi fundada por Márcia Suzuki, uma missionária metodista que acusa o governo de negligência com a prática.

"A Funai afirma que a interferência é sempre negativa, mesmo que as crianças estejam em risco. Nós acreditamos que respeitar os índios também significa respeitar e proteger a vida deles", diz.

A tese é contestada pela Associação Brasileira de Antropologia, que acusa os ativistas de repetir métodos dos colonizadores portugueses.

"Tirar índios de suas aldeias para criá-los sob a ética cristã é uma interferência violenta, não um projeto humanitário", diz João Pacheco de Oliveira, dirigente da entidade e professor da UFRJ.

A Atini abriga 12 famílias, que recebem mantimentos e cuidados médicos, e diz ser mantida por doações. A ONG nega vinculação a igrejas, embora os evangélicos sejam maioria entre os voluntários.

Em 2010, a Funai processou outra entidade evangélica, a Jocum (Jovens Com Uma Missão), pela exibição de um suposto documentário sobre o infanticídio.

A Justiça Federal determinou a retirada do vídeo do YouTube por entender que ele incitava o preconceito e causava dano à imagem dos índios sem provar as mortes.

Frases

"As tradições dos povos indígenas devem ser respeitadas, mas o direito à vida é um valor universal e garantido pela Constituição" HENRIQUE AFONSO,  deputado pelo PV-AC
"Não precisamos de lei, e sim de convencimento. Em vez de penalizar, devemos conversar com as mulheres e fazer campanhas educativas" JANETE PIETÁ, deputada pelo PT-SP
"O texto ficou fraco. Vai permitir que o governo continue omisso diante das mortes" MÁRCIA SUZUKI, da ONG Atini

14/06/2011

AUDIÊNCIA PÚBLICA DEBATE INFANTICÍDIO EM COMUNIDADES INDÍGENAS

CÂMARA DOS DEPUTADOS
COMISSÃO DE SEGURIDADE SOCIAL E FAMÍLIA
54ª Legislatura - 1ª Sessão Legislativa Ordinária

PAUTA DE REUNIÃO ORDINÁRIA
AUDIÊNCIA PÚBLICA

DIA 14/06/2011
LOCAL: Anexo II, Plenário 07
HORÁRIO: 14h30min

A - Audiência Pública:

REUNIÃO DE AUDIÊNCIA PÚBLICA

(Requerimento nº 25/11 dos Deputados Roberto de Lucena e Rosinha da Adefal)

Tema: "Debater a grave situação de crianças indígenas com deficiência e com problemas de saúde conforme relatado no documentário Quebrando o Silêncio, da jornalista Sandra Terena".

Convidados:

SANDRA TERENA  Jornalista e produtora do Documentário: "Quebrando o Silêncio"

EDSON BAKAIRI  Professor e líder do Movimento Indígenas a Favor da Vida

EDWARD M. LUZ   Antropólogo do Núcleo de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento de Povos e Comunidades Tradicionais

Representante do MINISTÉRIO DA SAÚDE/Secretaria Nacional de Saúde Indígena

01/06/2011

LEI MUWAJI APROVADA NA CÂMARA DOS DEPUTADOS

Foi aprovada hoje na Comissão de Direitos Humanos na Câmara dos Deputados o projeto de lei 1057, de autoria do Deputado Henrique Afonso (PV - Acre). A proposta visa proteger as crianças indígenas em situação de risco por terem nascido com deficiência física ou mental, por serem gêmeas, filhas de mãe solteira ou por outras razões determinadas pela tradição de cada povo indígena. Em algumas etnias essas crianças ainda correm risco de serem rejeitadas, abandonadas na mata ou mortas por membros da própria família, devido a pressão interna. Em algumas destas comunidades há relatos de mais de 200 crianças mortas nessas condições.

O projeto de lei é conhecido como LEI MUWAJI, em homenagem a Muwaji, uma mulher da etnia suruwahá que decidiu abandonar seu povo para poder manter viva sua filha que sofre de paralisia cerebral. Hoje Muwaji vive na "Casa das Nações", uma comunidade indígena multicultural mantida pela ATINI no Distrito Federal. O primeiro rascunho do texto da Lei Muwaji foi feito pelo líder indígena Eli Ticuna, que é também o diretor-adjunto da ATINI.

Indígenas presentes no plenário de votação nesta manhã festejaram a aprovação e parabenizaram a Deputada Janete Pietá (PT - SP), relatora do projeto. O texto da Lei Muwaji que foi aprovado hoje prevê que o Estado deve desenvolver programas de conscientização e educação em direitos humanos nas comunidades indígenas, visando à proteção de crianças em risco por questões de origem cultural. Eli Ticuna comemorou:
    
"- Realmente é uma grande vitória para o bem de nossos pequeninos!"


Comissão aprova proposta que assegura direitos de crianças indígenas

Agência Câmara de Notícias
02/06/2011 - Brizza Cavalcante

A Comissão de Direitos Humanos e Minorias aprovou na última quarta-feira (1º) proposta que estabelece medidas para assegurar os direitos à vida e à saúde de crianças indígenas. O texto aprovado é substitutivo da deputada Janete Rocha Pietá (PT-SP) ao Projeto de Lei 1057/07, do deputado Henrique Afonso (PV-AC).

De acordo com a proposta, caberá aos órgãos responsáveis pela política indigenista promover iniciativas de caráter conscientizador, quando forem verificadas, mediante estudos antropológicos, as seguintes práticas: infanticídio; atentado violento ao pudor ou estupro; maus tratos; agressões à integridade física e psíquica de crianças e seus genitores.

O substitutivo reafirma o respeito e o fomento às práticas tradicionais indígenas, sempre que as mesmas estejam em conformidade com os direitos fundamentais previstos na Constituição e com os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos. O texto acrescenta artigo ao Estatuto do Índio (Lei 6.001/73).

Mudança

O projeto original obriga qualquer pessoa com conhecimento de práticas “nocivas” à vida e à integridade físico-psíquica de crianças indígenas a comunicar o fato à Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e à Fundação Nacional do Índio (Funai). Conforme o projeto, o fato também deve ser informado ao conselho tutelar da criança da respectiva localidade ou, na falta dele, à autoridade judiciária e policial. A pena para a pessoa ou autoridade pública que se omitir será de seis meses a um ano de prisão, além de multa.

Para a relatora, não há, no entanto, a necessidade de “interferência” externa nas comunidades, mas sim de iniciativas de caráter conscientizador. Pietá também considerou controverso o uso do termo “nocivas” para denominar algumas práticas tradicionais dos povos indígenas. “O uso do termo atribui, mesmo que implicitamente, a pecha de cruéis a esses povos e, por conseqüência, deixa de considerar sua pluralidade cultural, colocando-os à margem da sociedade”.

Tramitação

O projeto será analisado agora pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania em, em seguida, pelo Plenário.

Reportagem – Lara Haje
Edição – Paulo Cesar Santos
'Agência Câmara de Notícias'

08/05/2011

CORAÇÃO DE MÃE


A ATINI tem a alegria de homenagear hoje todas as mês indígenas. Neste ano escolhemos homenageá-las na pessoa de Tejuyalo - mulher batalhadora, amorosa e dedicada mãe de 3 lindas crianças. Para proporcionar oportunidade de vida com dignidade e justiça para seu filho mais novo, portador de necessidades especiais, Tejuyalo tomou a difícil decisão de deixar sua aldeia por tempo indeterminado, e mudar-se para a Casa das Nações. Ali ela sabe que poderá criar seu filho num ambiente seguro, onde a diferença é respeitada e onde toda criança tem direito à vida! Além disso a Casa das Nações é uma aldeia multi-cultural, onde povos indígenas de diversas etnias têm a oportunidade de preservar sua língua e cultura, ao mesmo tempo que aprendem a conhecer e a conviver de maneira saudável com a sociedade nacional. Parabéns, Tejuyalo, pela decisão! Parabéns a todas as mães da ATINI!

21/04/2011

USP - Professora aborda a vulnerabilidade da mulher indígena

GT 21- Violência de Gênero: A Perspectiva dos Homens

15154 - INFANTICÍDIO E MORTE INTENCIONAL DE CRIANÇAS EM GRUPOS INDÍGENAS BRASILEIROS: GÊNERO E IDENTIDADE ÉTNICA COMO FATORES DE VULNERABILIDADE

VALÉRIA TRIGUEIRO SANTOS ADINOLFI - USP/UNICID
20/04/2011 - 13:30 - 16:30

Mulher da etnia Waurá que precisou deixar sua comunidade para poder criar
 seu filho com necessidades especiais. Foto: Kakatsa Kamaiurá (ATINI)

Este trabalho discute os sentidos do infanticídio e morte intencional de crianças nos processos de construção da identidade subjetiva e coletiva do feminino em sociedades indígenas brasileiras, sob o referencial da Bioética e Saúde Coletiva. A construção ideológica do feminino e do pertencimento ao grupo aparecem em diversos estudos como associados à prática do infanticídio e morte intencional de crianças, evidenciando gênero como categoria fundamental para compreender esse fenômeno e superá-lo. Dados indicam que a prática de infanticídio e morte intencional de crianças em grupos indígenas deve ser tratada como problema de saúde coletiva, interferindo nos índices de mortalidade infantil nas áreas em que ocorre e tendo consequências para o processo saúde-doença das mulheres indígenas ainda não estudados. Esse fenômeno atinge diretamente as crianças indígenas e em especial meninas, afetando também as mulheres indígenas – sobretudo mas não apenas mães. Em quase todos os grupos nascer com o sexo feminino é um risco de morte por si: meninas são elegíveis para a morte em decorrência unicamente de seu gênero. É um ciclo de abusos atinge crianças – em especial meninas – e mulheres, para quem se constitui parte de um sistema de punição por gravidezes fora do casamento, relacionamentos não permitidos, separação, morte do marido, instabilidade conjugal e concepção de crianças considerados portadoras de maldições, como gêmeos e portadores de necessidades especiais. Assim, mulheres indígenas são expostas a uma vulnerabilidade dupla que ocorre intra e extra-grupos (por gênero) e no contato com a sociedade externa são ainda vulnerabilizadas (por sua condição étnica). Essas mulheres enfrentam a dificuldade de romper com uma prática de afirmacão cultural que traz sofrimento e angústia devido a pressões internas e externas, vivenciando um processo de deterioração psicológica. Há portanto uma dupla violência, física e psíquica, contra crianças (em especial meninas) que são mortas e mulheres submetidas a sofrimento psicológico. Essa violência produz morbi-mortalidade, viola o direito à saúde e à vida saudável para essas mulheres e contraria os princípios do SUS de universalidade de acesso, integralidade das ações e equidade e os direitos humanos fundamentais de crianças e mulheres, constituindo imoralidade, atentado à ética.

V Congresso de Ciências Sociais e Humanas em Saúde=

08/03/2011

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

A ATINI tem imensa alegria em homenagear as mulheres indígenas.



Mulheres que vivem hoje momentos difíceis, de intensas transformações nas relações
 interétnicas em nosso país.

Mulheres que precisam de sabedoria para ajudar as novas gerações a não perder a sua identidade étnica nem sua dignidade pessoal neste processo histórico.

Mulheres que são ao mesmo tempo fortes e delicadas, ao mesmo tempo conciliadoras e questionadoras.

Mulheres que são guardiãs de culturas ancestrais, mas que estão
sempre buscando transfomação social e esperança.

Mulheres que amam suas crianças, mulheres genuínas, mulheres de verdade.

Homenageamos Muwaji Suruwahá, que precisou se afastar de seu povo para garantir a vida
e a dignidade de sua filha Iganani, portadora de paralisia cerebral.

Homenageamos Kamiru Kamaiurá, que enfrentou uma tradição ancestral, resgatou um bebê que havia sido enterrado vivo, e o adotou como filho.

Homenageamos Diva Kayabi, que adotou três bebês xinguanos que seri
am enterradas vivos, e depois fundou uma ONG para defender o direito das crianças do Xingu.

Homenageamos Celina Sateré-Mawé, que construiu um barracão de palha no quintal de sua casa e diariamente oferece alimentação e educação para 30 crianças indígenas carentes do seu bairro.

Homenageamos Sandra Terena, jornalista indígena, que dirigiu um documentário emocionante que mostra pais de crianças sobreviventes compartilhando sua alegria por terem tido a coragem de salvar seus filhos.

Homenageamos também Tejuyalu Waura, Juruka Kamaiurá, Hélia Sateré-Mawé, Lili Terena, Kaitsuka Kamaiura, que junto com as cuidadoras Vanilda, Sarah, Adriana e Graci, estão construindo um futuro de esperança para nossas crianças indígenas! Parabéns a todas as mulheres da ATINI!

28/01/2011

ATINI SOU EU

Depoimento de um voluntário:

"Passamos nossa vida lutando por aquilo que acreditamos ser correto, porém  hoje entendo que existem causas e CAUSAS. Um exemplo de uma causa que vale a pena é a causa da ATINI, que luta para dar voz aos indígenas que escolheram a VIDA.  Sabemos que a vida, teoricamente, é o bem maior a ser preservado nas mais diversas leis, nacionais e internacionais. Mas na prática não é isso que a gente vê.

Sou voluntário de Itajaí e estou dedicando parte de minhas férias como cuidador na chácara da ATINI. Um dia destes eu estava conversando com a precursora deste movimento entre os indígenas, a jovem Muwaji Suruwahá. Perguntei a ela qual era o significado da palavra ATINI em sua língua. A resposta que recebi foi surprendente. Ao invés de me explicar o significado da palavra em si, Muwaji me respondeu com simplicidade:

- Diego, ATINI SOU EU, que não quis entregar iganani para ser morta, mas escolhi cuidar dela e vê-la crescer .

Muwaji escolheu não matar sua filha, condenada por ter problemas de desenvolvimento motor devido a uma paralisia cerebral. Ela escolheu seguir um caminho diferente e pedir ajuda. Confesso que por alguns minutos fiquei embaçado com sua resposta, tomado pela felicidade de constatar que não somos só nós, os chamados “civilizados”, que entendemos a profundidade e importância desta causa. Ficou claro para mim que os indígenas atendidos pela organização entendem a importância desse grito que soltaram em favor de suas crianças e da vida.

Depois dessa conversa fiquei ainda mais firme e consciente de que estamos sim no caminho certo, que é o caminho de dar voz àqueles que por muito tempo não a tiveram. Hoje, quando ando pela chácara, posso ouvir muitas risadas e rostinhos das mais diversas etnias e com isso respiro aliviado pois o choro abafado pela terra de uma cova foi trocado pela alegria de ter tido mais uma chance de vida."

Iganani na equoterapia

Iganani na festa de natal, com presentes doados por um projeto
da Igreja Batista do Calvário, em Rio Claro, SP.

Depoimento de Diego Luiz Felício, voluntário na ATINI durante o mês de janeiro de 2011.

Muwaji vive em Brasília com seus filhos Iganani, Irurai, Ahuhari e Inikiru. Recentemente ela pediu que Ahuhari, seu filho adolescente, fosse levado para passar uma temporada na casa de amigos numa chácara em Porto Velho. Esta chácara pertence à organização JOCUM e lá moram duas famílias de missionários que já viveram na aldeia suruwahá, falam a língua e conhecem bem a cutura indígena. Como Ahuhari já é adolescente, segundo a cultura suruwahá, rapazes adolescentes devem sair para passar temporadas longe da mãe, como parte importante do seu desenvolvimento. Muwaji pediu então que Ahuhari fosse visitar estes amigos missionários em Porto Velho por um período. Enquanto está lá, Ahuhari está participando de cursos de educação indígena com jovens indígenas de diversas etnias.

08/11/2010

AJUDE UMA CRIANÇA INDÍGENA SOBREVIVENTE DO INFANTICÍDIO

Sua doação pode significar muito para uma destas famílias!



BANCO DO BRASIL Agência 2727-8
Conta Corrente 13645-X
ATINI - VOZ PELA VIDA
CNPJ 08.580.772-0001-51

27/08/2010

Jornalista indígena mostra em documentário histórias de sobreviventes do infanticídio indígena

13/08/2010 09h52min | Susana Sarmiento Setor 3 - Senac - SP

Crianças brincam em uma comunidade indígena durante
filmagens do documentário de Sandra Terena

“Eu fico triste, quando vejo criança embaixo da terra. Mas fico feliz, quando a vejo em pé brincando”, afirma Ayato Kuikuro, agente de saúde da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), um dos entrevistados do documentário Quebrando o Silêncio, lançado em março deste ano, em que apresenta histórias de sobreviventes do infanticídio indígena e de famílias que saíram das aldeias para salvar a vida de seus filhos.

O infanticídio ainda é uma prática existente em algumas aldeias indígenas do Brasil. Em geral, as vítimas são gêmeos, deficientes ou nascidos de relações instáveis, de acordo com crença de cada comunidade. Sandra Terena, jornalista e documentarista responsável por essa obra, ressalta que o objetivo principal é promover o debate sobre o tema entre os indígenas, e não influenciar sua cultura.


Em seu registro de nascimento fornecido pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Sandra é Alyeté, que significa pessoa meiga. Seu avô é um dos fundadores da aldeia Icatu, onde veio sua família, da etnia terena, localizada no oeste paulista, próximo a região de Bauru e Araçatuba. Seu pai foi para a Curitiba (PR), aos 18 anos, para servir ao quartel. Lá conheceu a mãe de Sandra. “Vivi uma vida dupla na infância. Ora na cidade, ora na aldeia”, revela a jornalista.


Desde os 11 anos Sandra acompanha seu pai em movimentos indígenas. A jornalista participa de congressos, manifestações, reivindicações, encontros e outras ações. Aos 18, com dificuldades de financiar uma faculdade, Sandra recebeu uma bolsa de estudos da FUNAI para cursar jornalismo em uma universidade privada. “Agarrei essa oportunidade com todas as minhas forças. Pegava dez ônibus por dia para ir e voltar da universidade. Passei por algumas dificuldades”, lembra. Recentemente, fez ainda uma pós-graduação em Cinema na Pontifícia Universidade Católica. Atualmente ela é presidente da ONG Aldeia Brasil. Conheça o porquê da escolha do tema, a trajetória da edição e outras curiosidades sobre essa produção na entrevista abaixo:



Portal Setor3- Por que abordar o tema infanticídio indígena?

Sandra Terena - Quando eu era pequena, o meu pai contava que há muito tempo havia o infanticídio. Pensava que essa prática era do passado. Soube que essa prática ainda existia, mas já tinha muitas famílias e, principalmente, mães que não queriam mais isso e, mesmo assim, sofriam com a perda de seus filhos. Eu sou mãe, e, ao imaginar o sofrimento dessas pessoas, cheguei a conclusão que eu deveria fazer alguma coisa, embora sem ter ideia de como poderia colaborar. O documentário foi uma forma que encontrei de trazer o assunto à tona nas comunidades para que o tema fosse debatido de forma aberta, com respeito e responsabilidade por quem sofre com essa prática.

Portal Setor3- Essa prática ainda é muito comum? Em quais comunidades em especial?


ST- Atualmente são, no mínimo, 20 povos que tem como hábito a prática do infanticídio. O filme mostra diversas comunidades na região do Xingu, por exemplo, podemos citar os kuikuro, kamayurá, waurá. Estou citando aleatoriamente, o que não quer dizer que essas etnias a praticam em maior número.


Portal Setor3- Em sua avaliação, por que essa prática acontece? Há alguma comunidade específica que defende tal ação?


ST- Sobre isso existem diversas teorias, como o fato de a permanência de uma criança considerada “amaldiçoada” trazer algum azar para a comunidade indígena, como o acontecimento de uma catástrofe natural, má sorte na colheita, ou na pesca, mas boa parte dessas teorias são conhecimentos que fazem parte da história oral. Em alguns povos, há 300 anos não era possível um filho de mãe solteira sobreviver, pois não haveria a figura do caçador, por exemplo. Por isso essa prática tinha um porquê. Hoje, existem outras formas de sobreviver que vão além da caça - uma atividade muito importante ao nosso povo. Dessa forma, muitas famílias entendem que não é mais preciso matar os seus filhos. Não encontrei uma comunidade específica que defendesse essa prática. Não posso falar por todos. Somos mais de 230 povos espalhados pelo Brasil. Mas posso falar pelo meu povo e pelos povos que tive a oportunidade de conversar. Existe uma parcela da população, principalmente entre os mais velhos, que resiste ao diálogo. No entanto a grande maioria das lideranças e mulheres está a favor da vida. O principal problema é conseguir políticas públicas para isso. Um cadeirante dificilmente viveria hoje em uma aldeia no alto Xingu. Uma criança que precisa fazer hemodiálise três vezes por semana sai muito caro aos cofres do governo. Então é fácil dizer: “Isso é da cultura, não vamos interferir”.


Portal Setor3- Como foi o processo de pesquisa desse tema? Quais foram as principais dificuldades? Como conseguiu conversar com 350 mulheres indígenas? Como você fazia a procura, por etnia? Como balancear os depoimentos?


ST- O documentário, antes de ser realizado, teve um extenso trabalho de pesquisa documental, bibliográfica e de campo nas aldeias, onde a gente tinha informação de que havia a prática do infanticídio. Por algumas aldeias serem bem afastadas de grandes centros urbanos, foi feito todo um planejamento logístico e com estrutura. Em todo o trabalho nos utilizamos dos recursos da metodologia científica para executarmos o documentário, isso nos permitiu analisar os riscos, e, ao mesmo tempo, nos deu mais confiança para viabilizar o projeto mesmo com pouco recurso. O trabalho todo foi possível, porque tivemos voluntários que prontamente se disponibilizaram a colaborar, doando recursos financeiros, tempo, talento e o seu trabalho. Na minha opinião, o documentário é resultado de todos os envolvidos acreditarem que esse trabalho poderia ser feito, e que daria certo e deu; e tem mostrado bons resultados.


Acredito que a principal dificuldade foi conseguir recursos para viabilizar o documentário, pois a execução do filme envolveu custos com os deslocamentos da equipe para as aldeias e para a casa das famílias de indígenas que moram na cidade. Também posso citar o cansaço físico, por conta da distância foi uma das dificuldades que enfrentamos. Para você ter uma idéia para eu chegar no Xingu, saí de Curitiba, fui para Brasília e de lá peguei um ônibus que iria até a cidade de Canarana, no Mato Grosso, essa viagem durou 15 horas, chegando lá percorremos mais duas horas de caminhonete até atingir a beira do rio Xingu, onde entramos num barco e fizemos mais um percurso de 10 horas pelo rio. Em relação ao ambiente não tive nenhuma surpresa, porque já estou acostumada a visitar várias aldeias indígenas. Foi bastante gratificante entrevistar as mulheres, elas foram muito atenciosas, mas, por outro lado, foi uma tarefa bastante trabalhosa visto que falamos com bastante gente. Foi muito difícil balancear os depoimentos, eles eram muito ricos, o que rendeu várias horas de fitas, mas procuramos alinhar o documentário no sentido de mostrar que o infanticídio existe e os efeitos colaterais que essa prática causa nas suas comunidades.


Portal Setor3- Em alguns depoimentos, smostraram críticas a ONGs, antropólogos, etc. Alguns indígenas afirmaram que esses profissionais não entendem a cultura indígena. De que forma os próprios indígenas podem ser protagonistas de suas mudanças, de sua valorização cultural?

ST- Para alcançarmos isso, acho que tudo passa pela educação. Muitas políticas públicas que dizem respeito ao índio caminham sempre com morosidade, e isso atrapalha. É preciso ter ensino de qualidade para as crianças. Elas precisam aprender a língua e a qualidade desse ensino precisa melhorar bastante. Tem casos de crianças, posso dizer aqui pelo Paraná, que passam dois ou três anos no ensino fundamental e acabam reprovando, porque não conseguem acompanhar. Há professores que fazem curso de capacitação para atuar nas escolas dentro das aldeias, mas esse trabalho precisa ser sempre avaliado para ver se o ensino está cumprindo com a necessidade. A partir do momento em que você conhece a sociedade e passa a entendê-la da mesma forma que ela, você consegue discutir de igual para igual.

Portal Setor3- Como se dá o processo de exibição desse documentário nas próprias comunidades indígenas? Como foi a escolha para exibir em 200 comunidades com ajuda da Atini – Voz pela Vida?


ST- Fiz questão da primeira exibição do filme ser realizado no Parque do Xingu, em um encontro de mulheres. Todos assistiram com muita atenção. As lideranças me respeitaram muito. Houve grande apoio dos povos que lá estavam. Houve ainda uma parcela de pessoas que se mostraram resistentes a questão. A ocasião foi bastante oportuna, porque tinha mulheres de mais de 10 povos, do baixo, médio e alto Xingu. Eu pude perceber que as mulheres falaram abertamente sobre o tema e elas esperam receber apoio que resulte em melhorias para se minimizar o sofrimento emocional e social em torno do infanticídio. Identifiquei que elas assistiram ao filme com atenção e não se sentiram lesadas ou ofendidas, até porque em todas as etapas do filme nos preocupamos muito com isso, de maneira alguma queríamos fazer algo que fosse provocativo, sensacionalista e que fizesse julgamento de valor com as comunidades documentadas. Também foi interessante ver que muitos ficaram felizes de se verem no vídeo e ao demonstrar preocupação no sentido de se encontrar uma solução para essa questão. Eu sei que o filme está rodando o Brasil, tanto nas aldeias, como em diversos setores da sociedade, eventos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e em exibições seguidas de debates nas universidades e emissoras de tevê. Para mim, isso é bastante positivo, porque, se há mobilização, mostra interesse pela causa e propor soluções que visem em melhorias para quem vivencia essa questão que são os indígenas que estão nas aldeias e para as famílias que hoje moram na cidade. O filme tem sido exibido em diversas aldeias de todo o Brasil e o objetivo é gerar discussão sobre o tema.

Portal Setor3- Quais resultados foram significativos com realização desse documentário?


ST- O filme também foi lançado em Brasília, no Memorial dos Povos Indígenas no dia 31/03. Por conta do lançamento e da relevância do tema, o filme tem tido uma divulgação na mídia, tanto no cenário nacional como local, inclusive repercussão na França. O filme está na internet, no site e no Youtube. Outro ponto favorável é que foi traduzido para o inglês e isso vai aumentar a divulgação no exterior. Creio que essas ferramentas de alguma forma vão ajudar a conseguir mais recursos para que possamos viabilizar a exibição, seguida de debate nas aldeias de todo o País. O filme também recebeu o Prêmio Jovem da Paz na categoria comunicação e Prêmio Voluntariado Transformador na categoria redução da mortalidade infantil. Os prêmios foram gratas surpresas. Estamos tão envolvidos com o trabalho que, às vezes, não temos tempo para pensar nisso. Nós sabíamos que havia um grande interesse público e relevância social nesse projeto. Esse reconhecimento certamente é muito importante. No entanto, esses prêmios não vão valer nada, se não atingirmos o objetivo que é exibir o filme pelas aldeias do Brasil, para que o nosso povo possa refletir sobre o infanticídio, para que políticas públicas saíam das nossas bases e das lideranças tradicionais das aldeias.


Serviço:

Título: Quebrando o Silêncio
Direção: Sandra Terena.
Roteiro: Sandra Terena, Oswaldo Eustáquio, André Barbosa e Christina Barbosa.
Produção: André Barbosa.
Narração: Sandra Terena.
Direção de fotografia: André Barbosa.
Edição: Sandra Terena e Christina Barbosa.
Finalização: André Barbosa.
Imagens adicionais: Enock Freire.
Imagens da reunião Parque Xingu: Gustavo Domingos.
Pesquisa: Edson Suzuki.
Apoio documental: Márcia Suzuki.
Som direto: André Barbosa e Kakatsa Kamayurá.
Tradutores: Cacique Aritana Yawalapiti (idioma “Yawalapiti”), Francisca Irving (idioma “Jarawara”), Kakatsa Kamayurá e Karatsipa Kamayurá (idioma “Kamayurá”).
Trilha sonora original: Marcos Vicente
Site:www.quebrandoosilencio.blog.br

26/07/2010

MARINA SILVA, POTIRA E OS MILAGRES AMAZÔNICOS


Esta é uma daqueles cenas que a gente custa a apagar da memória. No meio de uma conferência importante, de gente grande, eis que uma menininha linda e despachada se aproxima da ilustre preletora. Com toda desenvoltura entrega-lhe um colar indígena, tasca-lhe um beijo estalado e posa sorridente para as fotos.

A preletora ilustre chama-se Marina Silva. A indiazinha despachada será chamada aqui de Potira.

Quanto mistério, quanta dor, e quanta esperança este encontro evoca. As duas nasceram na floresta amazônica, as duas enfrentaram a dureza da vida na mata. As duas estavam destinadas a engrossar as fileiras de brasileiras excluídas, anônimas e invisíveis.

Marina nasceu filha de seringueiro, tomou muito banho de igarapé e comeu pirarucu com farinha nas beiradas dos rios. Potira nasceu filha de índia solteira e por isso não chegou a comer nada, não tomou banho, nem lhe cortaram o cordão umbilical.

Marina ouvia as histórias do avô enquanto espiava a chama fina da lamparina nas noites escuras da mata. Potira não ouviu nada, só o choro abafado da mãe, obrigada a abandoná-la na floresta por conta da sua solteirice.

Marina imaginava o futuro enquanto se embalava na rede e sonhava um dia aprender as letras. Potira não teve rede, foi enrolada numas folhas de bananeira brava e largada perto de um toco de pau na beira da capoeira.

Marina se vestia com camisa de manga comprida para se proteger dos carapanãs e dos marimbondos, enquanto seguia o pai pelas picadas estreitas do seringal. Potira não conseguiu se proteger das formigas que se aproximaram e começaram a comer a placenta ainda ligada ao seu corpinho recém-nascido. Nem dos insetos que picaram suas pernas e seu rosto naquela noite comprida e chuvosa.

Marina mudou seu destino quando desafiou a sorte - teve coragem de pedir ao pai que a deixasse sair para estudar na cidade grande. A esperança de Potira surgiu quando duas tias decidiram escondê-la numa roça velha e correr por 4 horas na mata até o acampamento dos missionários.

Marina esperou até os 16 anos para conseguir decifrar as primeiras letras do alfabeto. Potira esperou 36 horas na mata até ser resgatada e salva da morte.

Dois milagres, duas histórias de superação, de desafio às leis da probabilidade. Marina aprendeu a ler no Mobral, veio a ser professora, doutora, senadora, ministra. Hoje é candidata a presidência da república. Potira foi adotada por uma professora paulistana casada com gaúcho, e ganhou duas irmãs rondonienses. É a caçula e o xodó da família.

O encontro da foto aconteceu recentemente num grande evento público em Brasília. Potira entregou a Marina Silva o colar em nome das crianças indígenas sobreviventes do infanticídio que são atendidas pela ATINI.

Em seguida, Kakatsa Kamaiurá, secretário geral da organização, também sobrevivente, tomou o microfone e fez seu apelo. Queria saber de Marina se ela se comprometia a defender o direito das crianças indígenas em risco de infanticídio. Marina respondeu emocionada que toda criança tem direito à vida e que ela priorizaria, em seu governo, os direitos dessas crianças.

Potira saiu toda saltitante, rindo orgulhosa por ter tirado foto com uma mulher tão importante. Criança é criança e ponto final.

15/07/2010

FIORELLA E EMEKA SE DESPEDEM DA ATINI...


A advogada peruana Fiorella Castiglioni e o engenheiro nigeriano-canadense Emeka Nzekwu , se despedem depois de 3 meses vivendo na chácara "Casa da Nações" em Brasília, e servindo as crianças e famílias indígenas da ATINI. Foram meses de experiências profundas, de muito aprendizado e de muito trabalho.

Os dois vieram para a ATINI como trainees do programa internacional de intercâmbio da AIESEC, e trabalharam como voluntários na chácara durante este período. Emeka e Fiorella desenvolveram atividades culturais e educativas com as crianças e jovens, além de trabalharem na produção de material de conscientização sobre a situação das crianças indígenas brasileiras, em inglês, francês e espanhol.

O estágio deles está chegando ao fim e certamente vão deixar muitas saudades. Nosso desejo é que eles sejam muito felizes e que continuem espalhando alegria, competência e compromisso social por onde passarem.

22/05/2010

ATINI PARTICIPA DA ONDA VERDE


A Onda Verde é uma campanha plurianual que visa conscientizar as pessoas sobre a importância da biodiversidade. Ela reforça o trabalho em Comunicação, Educação e Conscientização do público dentro do programa da Convenção para a Diversidade Biológica (CDB), entidade que lidera o movimento no mundo.



Desde 2007, a Onda Verde celebra mundialmente o Dia Internacional da Diversidade Biológica (IDB). Ela também apóia outras iniciativas nacionais, internacionais e globais de plantio de árvores, tais como a campanha “Um Bilhão de Árvores”, liderada pelo PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).



A idéia é promover uma contagem regressiva para que às 10h (horário local), todos se mobilizem pela proteção da biodiversidade, criando uma “onda verde” mundial, de leste a oeste do planeta.

(fonte www.ondaverdefundacao.wordpress.com)

ATINI - PROTEGENDO A BIODIVERSIDADE E A DIVERSIDADE CULTURAL


Cientes da importância da preservação da biodiversidade, e já estando envolvidos com a proteção da vida das diversidades culturais, nós da ONG ATINI – Voz Pela Vida, decidimos aderir ao movimento ONDA VERDE promovido pela Fundação O BOTICÁRIO de proteção ao Meio Ambiente.


Como ONG nossa movimentação foi a de juntar os indígenas das 5 diferentes etnias assistidas pela organização e trazer a conscientização da importância de se preservar a biodiversidade que eles próprios utilizam em sua dieta diária.


Nosso DIA 21 de Maio começou movimentado. Logo cedo os indígenas e voluntários da organização se reuniram para se pintar e conversar sobre a importância do movimento e se preparar para o plantio das árvores. Logo em seguida adultos, crianças, indígenas e não-indigenas seguiram para os locais destinados ao plantio das mudas, aqui mesmo na sede da ATINI.



Foram plantadas 10 mudas de árvores frutíferas nativas do cerrado brasileiro, região onde fica nosso terreno. Entre as mudas plantadas estavam: Ingá, Jatobá, Pimenta da Jamaica, Laranja Pêra e Pêra. As mudas foram plantadas em lugares estratégicos da chácara, de acordo com as características específicas de cada planta.



Nosso compromisso a longo prazo é de seguir o caminho da proteção ao meio ambiente e da conscientização dos indígenas assistidos e também dos voluntários.

22/04/2010

DOCUMENTÁRIO DE SANDRA TERENA É CITADO EM PLENÁRIA NA CÂMARA DOS DEPUTADOS

Indígena Kamaiurá que lutou muito e conseguiu salvar um de seus netos gêmeos da morte.
Mas não conseguiu impedir que o outro fosse enterrado vivo.
Até hoje os pais da crianças lamentam a morte do bebê.


Deputado paranaense usa o plenário para falar sobre filme de jornalista paranaense


A jornalista e documentarista paranaense Sandra Terena, uma das poucas jornalistas indígenas do Brasil, saiu do anonimato com o documentário “Quebrando o Silêncio”. Finalizado em 2009 com recursos próprios, o filme já conferiu à diretora dois prêmios e está despertando interesse pelo Brasil. O filme, que tem apoio da entidade brasiliense Atini – Voz Pela Vida em sua produção e divulgação, retrata a vivência de algumas tribos em relação ao infanticídio indígena. Crianças que são filhos de mãe solteira, gêmeos ou deficientes físicos são sacrificadas em nome da cultura.

No dia 19 de abril, dia do índio, o deputado federal Íris Simões (PR-PR) usou a tribuna do Congresso Nacional para chamar a atenção dos deputados para a prática de matar crianças indígenas. “Fui surpreendido, neste fim de semana, por uma carta que recebi da jornalista e indígena Sandra Terena que relata a preocupação sobre um documentário que realizou e lançou em Brasília no dia 31 de março deste ano sobre o infanticídio”. Em seu discurso, Simões pediu de forma veemente uma atitude da Câmara. “A Comissão de Direitos Humanos, nos próximos dias, vai fazer um debate sobre essa questão, mas é latente que nós temos que fazer alguma coisa”, disse Simões.

No momento em que o deputado discursava na Câmara, uma equipe de jovens indígenas de pelo menos três povos diferentes, distribuía um folder nos corredores do parlamento com a seguinte frase: “Ajude a enterrar uma criança indígena”. Junto com a entrega, eles colocavam terra nas mãos dos deputados. “Foi emocionante. Durante a manifestação muitos parlamentares manifestaram solidariedade a nossa luta e conquistamos muitos aliados”, diz Damares Alves, conselheira da ong Atini – Voz pela Vida.

A jornalista Sandra Terena, que estava em Belo Horizonte para participar de um programa ao vivo na Rede Minas de Comunicação, sobre o centenário do indigenismo no Brasil, enviou mensagens de solidariedade aos manifestantes. “Este ano comemora-se cem anos de trabalhos com os povos indígenas. Nós, índios, não queremos mais que decidam por nós, não queremos mais ser integrados, como prevê o estatuto do índio. Temos autonomia para decidir o que é melhor para nós. E, nas entrevistas do filme Quebrando o Silêncio percebi que muitos dos meus parentes não querem mais matar as nossas crianças”, diz Sandra.

O líder xinguano Kakatsa Kamaiurá também emocionou parlamentares e assessores com sua fala. “Ei autoridades, vocês falam de nós sem nos conhecer. Vocês decidem por nós sem conhecer as nossas necessidades. Vocês nunca caçaram comigo. Não sabem o que o índio precisa. Ei deputados, deixa o índio falar, deixa a liderança kamaiurá falar”, disse.

Devido à repercussão deste tema, a Unicef, em 2009, abriu um edital para pesquisadores emitirem um relatório sobre a questão do infanticídio no Brasil. Quem está à frente deste trabalho é a antropóloga Mariana de Holanda. Este trabalho é contestado por organizações indigenistas porque os indíos reivindiam ter voz ativa nessa questão e por isso a pesquisa realizada pela jornalista indígena Sandra Terena, que resultou no filme Quebrando o Silêncio, deveria ter sido levada em consideração de forma pública. Em um depoimento no portal Amazônia.org, Mariana diz que "uma criança indígena quando nasce não é uma pessoa. Ela passará por um longo processo de pessoalização, no qual as relações que for estabelecendo serão fundamentais para que adquira um nome e, assim, o status de 'pessoa'. Portanto, os raríssimos casos de neonatos que não são inseridos na vida social da comunidade não podem ser descritos e tratados como uma morte, pois não é. Infanticídio, então, nunca".

No artigo: A Estranha Teoria do Homicídio Sem Morte, Márcia Suzuki, conselheira da Atini, revela que alguns antropólogos e missionários brasileiros estão defendendo o indefensável. “Através de trabalhos acadêmicos revestidos em roupagem de tolerância cultural, eles estão tentando disseminar uma teoria no mínimo racista”. A teoria de que para certas sociedades humanas certas crianças não precisariam ser enxergadas como seres humanos.

Nestas sociedades, matar essas crianças não envolveria morte, apenas interdição de um processo de construção de um ser humano. Mesmo que essa criança já tenha dois, cinco ou dez anos de idade. “Somos contra esse posicionamento. A partir do momento em que as mulheres e lideranças indígenas se manifestaram a favor da vida é obrigação do governo e sociedade prover meios para que essas crianças possam sobreviver. Para que isso possa se tornar realidade é preciso que o governo pense políticas públicas para atender essa questão. Sandra concorda. Para ela, essas políticas devem vir das bases, das lideranças tradicionais das aldeias.” Sou a favor de uma ampla consulta pública nas cinco regiões do Brasil e de preferência nas aldeias. Chega de decidirem por nós. Este é um momento que o protagonismo deve ser indígena”, afirma.

08/03/2010

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


A ATINI tem imensa alegria em homenagear as mulheres indígenas.

Mulheres que vivem hoje momentos difíceis, de intensas transformações nas relações interétnicas em nosso país.

Mulheres que precisam de sabedoria para ajudar as novas gerações a não perder a sua identidade étnica nem sua dignidade pessoal neste processo histórico.

Mulheres que são ao mesmo tempo fortes e delicadas, ao mesmo tempo conciliadoras e questionadoras.

Mulheres que são guardiãs de culturas ancestrais, mas que estão sempre buscando transfomação social e esperança.

Mulheres que amam suas crianças, mulheres genuínas, mulheres de verdade.

Homenageamos Muwaji Suruwahá, que precisou se afastar de seu povo para garantir a vida e a dignidade de sua filha Iganani, portadora de paralisia cerebral.

Homenageamos Kamiru Kamaiurá, que enfrentou uma tradição ancestral, resgatou um bebê que havia sido enterrado vivo, e o adotou como filho.

Homenageamos Diva Kayabi, que adotou três bebês xinguanos que seriam enterradas vivos, e depois fundou uma ONG para defender o direito das crianças do Xingu.

Homenageamos Celina Sateré-Mawé, que construiu um barracão de palha no quintal de sua casa e diariamente oferece alimentação e educação para 30 crianças indígenas carentes do seu bairro.

Homenageamos Sandra Terena, jornalista indígena, que dirigiu um documentário emocionante que mostra pais de crianças sobreviventes compartilhando sua alegria por terem tido a coragem de salvar seus filhos.

Homenageamos também Tejuyalu Waura, Juruka Kamaiurá, Hélia Sateré-Mawé, Lili Terena, Kaitsuka Kamaiura, Sarah Kamaiurá, que junto com as cuidadoras Vanilda, Damares e Graci, estão construindo um futuro de esperança para nossas crianças indígenas! Parabéns a todas as mulheres da ATINI!

21/02/2010

CINEASTA CARIOCA DEMONSTRA SOLIDARIEDADE COM OS POVOS INDÍGENAS

João Luiz Santolin de Oliveira decidiu usar suas férias de janeiro de maneira inusitada - prestando trabalho voluntário na organização ATINI em Brasília. João acabou de se formar em cinema na Faculdade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. Apaixonado por questões indígenas, o tema de sua monografia, que alcançou nota 9.5, foi:

"O CINEMA-DENÚNCIA E O INFANTICÍDIO INDÍGENA BRASILEIRO
A PARTIR DO FILME HAKANI"

Com experiência em TV, vários documentários e vídeos institucionais produzidos, além de trabalhos realizados na Africa, João decidiu usar sua experiência numa das causas sociais mais fascinantes que ele conhece - a luta das famílias indígenas dissidentes, que não aceitam a prática do infanticídio.

João Luiz passou 2 semanas em Brasília, na chácara da ATINI, acompanhando o dia-a-dia das famílias indígenas e da equipe de cuidadores. Documentou as crianças em atendimento médico, de volta às aulas, e brincando nos jardins da chácara. Além disso documentou a participação dos jovens indígenas em atividades do dia a dia, ordenhando as vacas, pescando tambaqui no tanque e coletando frutas no pomar.

João aprendeu muito sobre cultura indígena, comeu beiju de tapioca kamaiurá, saboreou tambaqui e matrinchã assados com muita pimenta e tomou mingau de piqui. Ganhou um colar tradicional xinguano feito de placas de caramujo, participou de muitas festas e de uma cerimônia de guaraná típica do povo sateré-mawé.




Além disso, João Luiz teve a oportunidade de documentar a atuação da diretoria da ATINI na área de articulação política. Filmou o diretor adjunto Eli Ticuna e o secretário geral Kakatsa Kamaiurá em audiência com o Secretário Nacional de Justiça, com o Presidente do Departamento de Saúde Indígena da FUNASA e com a assessoria do Ministro da Justiça. Em todos estes órgãos os diretores da ATINI apresentaram relatórios sobre o trabalho da organização e cobraram mais atenção no cumprimento das políticas públicas voltadas para os direitos das crianças indígenas.

Com certeza as férias de João Luiz serão inesquecíveis. Aos poucos, mais e mais profissionais vão descobrindo que o trabalho voluntário é uma excelente maneira de exercitar sua cidadania e também de alcançar crecimento e realização pessoal. A ATINI agradece a visita de João e torce para que ele tenha muito sucesso em seu trabalho de cineasta!

25/01/2010

YANOMAMIS EM CAMPANHA PELA VIDA

Líderes indígenas da tribo Sanumá, subgrupo dos yanomami de Roraima, estão promovendo uma verdadeira campanha humanitária nas aldeias. Depois de assistir o documentário HAKANI (www.hakani.org ) num encontro indígena em Manaus, passaram a ser militantes apaixonados do direito à vida das crianças indígenas.

Os líderes organizam encontros e distribuem cópias do filme entre os novos "agentes de mudança". Dali eles saem, de aldeia em aldeia exibindo o documentário e conclamando o povo a abandonar a prática do infanticídio. Veja na foto abaixo uma destas reuniões, onde os líderes exibem orgulhosos as cópias do documentário e o equipamento usado para a projeção do filme nas aldeias. O impacto positivo causado por esta campanha está sendo surpreendente e as projeções já estão cruzando as fronteiras, alcançando até as aldeias da Venezuela.



Os Sanumá criaram até uma inovação nas exibições do documentário. A medida que o filme vai passando, um sanumá vai narrando a história e explicando aos ouvintes cada detalhe do que está acontecendo. Assim a mensagem fica ainda mais clara e envolvente e a platéia acompanha o desenrolar da história com gritos, palmas e outras demonstrações de apoio ao narrador.

A prática do infanticídio entre os yanomami tem sido fartamente documentada no decorrer dos anos. Segundo a revista Problemas Brasileiros, do SESC, 96 crianças indígenas foram enterradas vivas ou sufocadas com folhas por suas mães em Roraima no ano de 2004. Em 2003 foram 68 casos - Clique aqui obter para mais dados. De acordo com os profissionais de saúde que atuam nas áreas indígenas de Roraima, o infanticídio é a principal causa da mortalidade infantil. Algumas profissionais chegam a estimar que, para cada 5 crianças yanomami que morrem antes de completar 1 ano, 4 seriam casos de infanticídio.

A prática não é percebida como crime pelos yanomami, que encontram em sua visão de mundo diversas justificativas para o ato. Para entender as causas da prática do infanticídio nas tribos indígenas brasileiras, clique aqui.

A ATINI parabeniza a iniciativa dos líderes do povo Sanumá, que se apropriaram da mensagem de vida do documentário HAKANI e se tornaram verdadeiros agentes de transformação social nas longínquas florestas e montanhas de Roraima.

Uma voz pela vida

A ATINI - VOZ PELA VIDA é uma organização sem fins lucrativos, sediada em Brasília - DF, reconhecida internacionalmente por sua atuação pioneira na defesa do direito das crianças indígenas. A Atini é formada por líderes indígenas, antropólogos, lingüistas, advogados, religiosos, políticos e educadores, e nutre profundo respeito pelas culturas indígenas. leia mais.

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